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O que mudou nas projeções para a safra de soja?

29 de novembro de 2023

Estimativas divulgadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicavam, inicialmente, uma safra recorde para o Brasil em 2023/24. 



Analistas de mercado e órgãos oficiais do setor projetavam um crescimento da área de soja, considerando os altos investimentos em tecnologia feito pelos produtores brasileiros e as novas variedades em regiões com alto potencial produtivo. Assim, as estimativas eram de uma produção de 163 a 165 milhões de toneladas de soja, superando a safra anterior. 



"Vale lembrar que na última safra estávamos em um contexto de La Niña, que penalizou o Sul do Brasil. Além disso, houve quebras muito importantes na Argentina e até uma redução do potencial produtivo do Paraguai", afirma o analista de mercado Alexandre Mendonça de Barros. Por isso, a perspectiva para a safra 23/24 era de produções elevadas nas regiões centrais do país, bem como a retomada no Rio Grande do Sul, na Argentina e Paraguai, levando à recuperação dos estoques globais de soja. Contudo, o especialista acredita que será difícil reproduzir os resultados das safras anteriores, principalmente no Cerrado brasileiro.


Impactos e desafios da safra brasileira

O clima é o principal fator que tem impactado o andamento da safra brasileira. Segundo Mendonça de Barros, os modelos de análise dos Estados Unidos mostram que os efeitos do El Niño devem se estender até o início de 2024, com um clima mais neutro a partir do segundo semestre.

Ele comenta ainda que o início da safra foi regular, com regiões em ritmo acelerado, mas ao longo das operações de plantio, o Cerrado foi prejudicado com a irregularidade das chuvas. "Houve replantio de safra em algumas áreas e potencial produtivo em baixa por causa das temperaturas extremamente elevadas. Vários colegas de campo reportaram escaldaduras em plantas e começaram a observar falhas significativas de estandes."



Isso prejudicou o ritmo do plantio, com atrasos registrados em estados como Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que vinha em linha com a velocidade de plantio do ano passado, mas começou a ficar abaixo da média histórica.



No Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia, regiões que costumam sofrer com a escassez de chuva em anos de El Niño, também é registrado um atraso relevante nas operações.



Quanto às chuvas, o modelo americano de precipitações indica que elas devem ficar abaixo da média histórica. O mês de dezembro deve ser mais seco do que o normal nas regiões centrais e no Nordeste do Brasil, enquanto as chuvas devem ser acima do normal no Sul. A partir de janeiro, o El Niño tende a perder força.




Como fica a safrinha de milho?

Para Mendonça de Barros, o cenário da soja deixa em aberto também a situação da próxima safrinha, afinal, a instabilidade no calendário de plantio da oleaginosa pode impactar o cultivo do milho. "Em nosso entendimento, já houve uma redução de área do milho por conta da expansão do algodão e da incerteza quanto à formação de preços do milho", destaca. Ele afirma que os estoques estão elevados e a seca ainda criou uma dificuldade de exportação porque vários rios do Norte do país secaram, o que não permitiu que os embarques funcionassem normalmente. "Há acúmulo de milho e pressão sobre os preços. Nossa leitura é que, mais uma vez, há uma incerteza muito grande quanto à safrinha", acrescenta.


O que esperar da safra 23/24?

Na opinião de Mendonça de Barros, a safra de soja deve fechar em torno de 156 milhões de toneladas. "Minha impressão é que já perdemos uma parte do potencial produtivo da soja. Também parece difícil apostar em uma produção de milho como a que tivemos este ano."



Por outro lado, o analista de mercado diz que esse contexto mostra a importância que o Brasil assume no cenário agrícola internacional. O país é o maior exportador de soja do mundo e, em 2023, tornou-se o maior exportador de milho. Por isso, as expectativas eram de que o Brasil, assim como Argentina e Paraguai, chegariam perto de sua produção máxima, entregando soja o suficiente para repor e até mesmo aumentar os estoques globais. Mas, agora, há dúvidas quanto à intensidade dessa recuperação. 



"Vale lembrar que o fechamento da safra dos Estados Unidos tornou claro que os estoques americanos estão muito baixos. Vai ser muito difícil medir essa safra, teremos uma variação enorme entre regiões brasileiras porque as chuvas não estão incidindo de maneira generalizada. A depender do comportamento do clima nas próximas semanas, esses números podem ser ainda menores", conclui Mendonça de Barros.