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Falsificação de defensivos agrícolas: prejuízo que vai além do campo

27 de abril de 2023

Entenda os impactos desse mercado ilegal e como identificar um produto falsificado

Você sabia que o uso de defensivos ilegais no Brasil representa um quarto do mercado nacional desses produtos? Em 2022, a falsificação de insumos agrícolas gerou um prejuízo de quase 30 bilhões de reais. Não é à toa que esse assunto tem se tornado um sério problema no campo. Mas quais são os impactos do uso ilegal desses produtos? Como identificar um defensivo falsificado? E por que esse mercado ilegal tem crescido tanto? "No meio investigativo existe até uma nomenclatura para esse crime que é 'novo ouro branco', devido à alta lucratividade que esse ilícito traz para a organização criminosa", pontua Reinaldo Nicolav, executivo de investigação e segurança de produto da Bayer.   Na opinião de Cassiano Medeiros, gerente regional de vendas na Bayer, esse problema ocorre por uma soma de fatores. Para ele, o fato de o agronegócio representar 30% do PIB brasileiro acaba atraindo esses grupos que atuam ilegalmente. "Essas pessoas atacam o mercado e, muitas vezes, o produtor vai atrás de falsas promessas olhando um preço mais atrativo, acreditando que está fazendo um ótimo negócio, até perceber que foi vítima de um golpe."  Por isso, ele orienta os agricultores a sempre comprar de distribuidores autorizados, cooperativas parceiras e observar se os produtos têm preços adequados ao mercado. "É bom para a segurança do produtor, para a nossa economia e ajuda diretamente a combater esse tipo de ilegalidade", acrescenta.  O professor e especialista em agronegócio Marcos Fava Neves também lamenta que o agro brasileiro, um dos mais pujantes do mundo, enfrente um problema como esse. Além da ilegalidade, ele cita os impactos na produtividade, nos resultados e os danos ao meio ambiente. "Esperamos que possa existir um combate rigoroso contra essa ilegalidade que macula a beleza do agro brasileiro."  

Os impactos dos defensivos agrícolas falsificados

Segundo Dyrson Abbade Neto, coordenador de Stewardship para proteção de cultivos na Bayer, os impactos do mercado de defensivos falsificados podem ser observados nos riscos ambientais e à saúde humana, no manejo das lavouras e na indústria.  Em relação à saúde humana e aos danos causados ao meio ambiente, ele cita o fato de que produtos licenciados passam por uma série de análises, pesquisas e aprovações que atestam sua segurança, ao contrário dos defensivos falsificados. "Quando você compra um produto ilegal, você não sabe o que tem lá dentro. Isso coloca em risco o aplicador, o meio ambiente e quem vai consumir aquele produto."  Sobre o manejo, Dyrson explica que produtos agrícolas falsificados podem não conter o ingrediente ativo, ou seja, são ineficazes. Em outros casos, possuem um ingrediente inadequado para o controle das pragas, o que pode acelerar a evolução da resistência dos insetos ou, ainda, doses elevadas que causam contaminações. "Existem produtos com até 50 vezes mais do que a dose recomendada", alerta.  Com tudo isso, a indústria é desestimulada a investir em pesquisas e no desenvolvimento de novos produtos.  

Como os falsificadores costumam agir

Para Reinaldo, a falta de uma legislação específica para punir esse tipo de crime no Brasil acaba contribuindo para o agravamento desse cenário.  Segundo ele, existem projetos tramitando no congresso a fim de tornar a falsificação de produtos agrícolas um crime hediondo, assim como acontece com a falsificação de medicamentos.  Atualmente, esses crimes podem ser divididos em duas categorias: se envolvem sementes ou defensivos.  "Para defensivos falsificados existe também o crime ambiental. É possível classificar ainda como crime contra a propriedade intelectual porque é a falsificação de uma marca patenteada, como estelionato e, dependendo da quantidade de pessoas, pode ser enquadrado como organização criminosa", explica o executivo de investigação da Bayer. Sobre as sementes, ele conta que os grãos são transportados normalmente com nota fiscal e, no destino, são ensacados como sementes e vendidos via bolsas de commodities. "Esse é outro problema porque há corretoras intermediando o processo de compra e venda sem saberem a real origem do produto."   

De olho nas embalagens

Os falsificadores de defensivos e sementes agrícolas trabalham com técnicas de impressão e fabricação de embalagens e sacarias para que a identificação desses produtos ilícitos seja mais difícil. Mas há caminhos para o agricultor identificar se o produto é falso ou não. O primeiro passo é fazer a compra em revendas autorizadas, analisar se o preço é compatível com o mercado e ficar atento à nota fiscal. A embalagem é outro fator que pode assegurar a segurança do insumo agrícola. A Bayer, por exemplo, conta com o Safety Seal na tampa dos produtos. O aplicativo realiza a leitura do QR Code e identifica de forma precisa a autenticidade dos selos dos produtos. No Brasil, o selo está disponível em todos os produtos que utilizam embalagem smartline de 250 ml até 20 litros.  "Com o Safety Seal, se o falsificador reutilizar a embalagem, o selo estará rompido e será facilmente identificado. Fazer a leitura do selo com o app é mais uma garantia caso as quadrilhas de falsificação tentem burlar as embalagens, acrescenta Dyrson.   Se o produtor identificar uma ação suspeita ou um produto falsificado, a orientação de Cassiano é que ele recorra a quem fez a venda. "Talvez a empresa que vendeu também possa ter sido lesada. O segundo passo é um boletim de ocorrência para informar as autoridades legais e para dar o destino correto a esse produto."   

Agro brasileiro lidera reciclagem de embalagens

O programa Campo Limpo é uma iniciativa do agro brasileiro que evita o descarte indevido de embalagens no meio ambiente.  Desde 2002, quando foi criado, o programa já retornou mais de 700 mil toneladas de embalagens, o que representa 92% de todo o volume de embalagens que é comercializado no Brasil. "Esse é um caso de referência mundial em quantidade de embalagens recicladas e um dos pontos que costumo destacar sobre a sustentabilidade do agro brasileiro em minhas palestras. Agora precisamos resolver o problema dos produtos falsos para que possamos ter um agronegócio cada vez mais transparente, sustentável e que gera desenvolvimento para o Brasil", comenta o professor Marcos Fava Neves. De acordo com Dyrson, essas embalagens recicladas geram cerca de 30 novos materiais que são usados na construção civil, na indústria automotiva e para a fabricação de novas embalagens. Além disso, a reciclagem ajuda a evitar que essas embalagens sejam usadas por falsificadores. Atualmente o programa Campo Limpo conta com mais de 400 pontos de coleta fixos e 4 mil pontos de coleta itinerante por todo o Brasil.