Cut out do algodoeiro
Aprenda como manejar a fase final do ciclo do algodão para alcançar alta produtividade e qualidade de fibraO cut out do algodoeiro marca a transição entre o fim do crescimento reprodutivo e o início da maturação das maçãs, sendo uma fase decisiva para a produtividade e qualidade da fibra. Nesse estágio, decisões de manejo podem impactar diretamente perdas superiores a 20% a 30%, especialmente quando há pressão de pragas, doenças ou condições climáticas adversas.
O termo cut out refere-se à interrupção natural do crescimento vegetativo e reprodutivo da planta, direcionando energia para o enchimento das maçãs e abertura dos capulhos.Nesse período, o manejo de pragas, doenças e condições climáticas é essencial para alcançar alta produtividade e qualidade da fibra, evitando perdas significativas na colheita.
Confira nossas dicas para favorecer ao máximo a produtividade do algodão e a qualidade da fibra.
A saúde das plantas de algodão
Apesar do início da abertura dos primeiros capulhos, ainda temos muitas maçãs que precisam de fotoassimilados para ganhar peso, e a produção desse insumo é de responsabilidade das folhas.
Por isso, a planta precisa estar saudável nessa fase da lavoura. Quanto mais protegermos as estruturas foliares do algodoeiro, melhor será o resultado na hora da colheita.
A manutenção da área foliar nessa fase pode influenciar diretamente o peso das maçãs e a qualidade da fibra, sendo responsável por até 80% do enchimento final dos capulhos.
Sendo assim, o foco deve ser voltado ao manejo de doenças e pragas específicas. Saiba quais são elas.
Manejo de doenças do algodoeiro
A principal doença que precisa ser monitorada e manejada com excelência após o cut out do algodoeiro é a ramulária (Ramularia areola).
A ramulária
De acordo com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), a ramulária é uma doença causada pelo fungo Ramularia areola e está presente em todas as regiões produtoras de algodão do mundo.
No Brasil, a doença é considerada uma das principais responsáveis pelo aumento dos custos de produção do algodão, ao lado das lagartas e do bicudo-do-algodoeiro.
A ramulária também é conhecida como míldio, falso oídio, mancha branca ou mancha de ramulária.
O fungo pode sobreviver em soqueiras remanescentes de destruição inadequada e em plantas de algodão perene.
Sendo assim, o próprio cultivo repetitivo do algodoeiro ou cultivo próximo de tigueras de algodão podem contribuir como ponto primário para a inoculação da doença.
As condições ideais para o surgimento do fungo são:
Ambiente com temperatura de 25°C a 30°C.
Umidade relativa acima de 80%.
Danos da ramulária
O fungo provoca a formação de manchas com característica angulosa e tamanho que varia de um a quatro milímetros nas folhas do algodoeiro, limitando-se às nervuras das folhas.
A ocorrência do fungo é facilmente identificada na face superior da folha.A cor das manchas pode ser branca ou acinzentada, com aparência pulverulenta em ambos os casos, caracterizada pela esporulação do fungo.
A doença também pode afetar as maçãs do baixeiro, causando podridão.
Impactos da ramulária na estrutura do algodoeiro
Após a esporulação, a estrutura infestada passa a perder área foliar. Com o tempo, a intensidade da lesão aumenta, mudando sua cor para marrom.
Daí em diante, a planta começa a perder capacidade fotossintética, podendo chegar a sofrer um tipo de desfolha involuntária. Em casos mais severos, as maçãs mais próximas do baixeiro podem apodrecer.
O impacto direto da doença na cultura é a redução de produtividade, por inviabilizar o desenvolvimento da planta nas fases finais da cultura.
Em condições favoráveis, a ramulária pode causar perdas de produtividade superiores a 30% a 75%, dependendo da suscetibilidade da cultivar e do manejo adotado.
Atualmente, a doença é considerada uma das principais limitações fitossanitárias do algodoeiro no Brasil, exigindo manejo preventivo e aplicações sequenciais.
Manejo da ramulária
O manejo da ramulária deve ser integrado, considerando os seguintes fatores:
Monitoramento da doença
Aplicações de fungicidas podem controlar a doença com eficiência, desde que sejam realizadas logo quando surgirem os primeiros sintomas.
Boa destruição de soqueiras
Tigueras de algodão são fonte de inóculo da doença, que pode se espalhar pela lavoura durante safras sucessoras.
Cultivares tolerantes
É preciso conhecer muito bem as condições climáticas de onde será instalada a cultura para escolher cultivares com características mais adequadas e, se possível, com maior tolerância à doença.
Rotação de fungicidas
Fungicidas dos grupos dos triazóis e estrobirulinas devem ser rotacionados para evitar o desenvolvimento da resistência do patógeno.
Estratégias mais eficientes incluem o uso de fungicidas multissítios associados a sistêmicos, respeitando intervalos de aplicação e condições climáticas para maximizar o controle.
Manejo de pragas do algodoeiro
O bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus grandis), o pulgão-do-algodoeiro (Aphis gossypii) e o ácaro rajado (Tetranychus urticae) são as principais pragas na fase quatro do algodoeiro. Ganham notoriedade nesse estágio porque, assim como a ramulária, são capazes de obstruir o desenvolvimento da planta com ataques nas estruturas foliares e nas estruturas reprodutivas.
Saiba quais são os danos causados por eles e como manejá-los.
O bicudo-do-algodoeiro
O impacto do bicudo é devastador quando não manejado corretamente. Graças à sua fama de praga altamente agressiva, o próprio mapa de produção algodoeira do Brasil se modificou.
O bicudo-do-algodoeiro é capaz de destruir até 70% da lavoura em uma única safra.
Esse inseto causa danos nos botões florais quando se alimenta em fase adulta ou larval.
Os orifícios abertos com a alimentação e oviposição da praga adulta ocasionam o amarelecimento e a queda do botão, comprometendo a produção e a qualidade da pluma.
Em altas infestações de bicudo-do-algodoeiro, costumam restar poucos capulhos e poucas maçãs viáveis.
O bicudo-do-algodoeiro é responsável por elevar significativamente o custo de produção, podendo representar até 30% dos custos com defensivos em áreas com alta infestação.
Manejo do bicudo-do-algodoeiro
O manejo de bicudo é desafiador porque a aplicação de inseticidas possibilita apenas o controle dos insetos adultos que permanecem nos botões florais. Isso configura a praga como um alvo difícil de atingir com pulverizações.
Além disso, o bicudo fica mais exposto nas horas mais ensolaradas e quentes do dia - período que não favorece a aplicação de inseticidas.Com isso em mente, o manejo do bicudo deve integrar:
Monitoramento constante
Ao encontrar de 3% a 5% de danos provocados pelo bicudo nas plantas (ponto de gatilho), é necessário realizar a aplicação.
Armadilhamento
É necessário instalar armadilhas. Assim é possível identificar a presença antecipada e manejar os bicudos que restaram no final da safra e monitorar a entrada dos bicudos no início da próxima safra.
Destruição de soqueiras e tigueras
Quanto menos hospedeiros o inseto tiver no campo, mais fácil é a missão de manter a praga abaixo do nível de dano econômico.
Inseticidas
Utilizar inseticidas registrados de diferentes grupos químicos e modos de ação em rotação para evitar a evolução de resistência da praga. Seguindo o monitoramento, as aplicações devem ocorrer de acordo com a necessidade da lavoura, mesmo na fase final do ciclo da cultura, com o objetivo de minimizar a reprodução do bicudo.
Uma boa tática de manejo deve se basear no monitoramento de pragas e no resultado do armadilhamento.
Constatando presença da praga é necessário realizar as aplicações nos focos de presença ou preventivamente nas bordaduras.
Se a lavoura estiver em região com alta pressão da praga, recomenda-se a realização de aplicações sequenciais em intervalos de 3 a 5 dias, com foco na redução da população adulta.
O ácaro rajado
O ácaro rajado é uma praga sugadora que ataca principalmente as folhas do ponteiro.
Os danos causados nas plantas durante seu processo de alimentação ocorrem por meio do rompimento das células da epiderme das folhas atacadas, que ficam amareladas e têm sua capacidade de produção de fotoassimilados comprometida, o que impacta consequentemente na produtividade.
Em infestações intensas, o ataque da praga pode causar até mesmo a desfolha da planta.
As condições favoráveis para a ocorrência dessa praga são:
Temperaturas médias em torno de 25°C a 28°C.
Clima mais seco, com baixa ocorrência de chuvas.
Infestações não controladas podem evoluir rapidamente em condições de clima seco, reduzindo significativamente a eficiência fotossintética da planta.
Manejo do ácaro rajado
A principal estratégia de manejo para o ácaro rajado tem sido o uso de inseticidas acaricidas. Para maior eficiência, é importante:
Monitoramento constante
É importante que as aplicações aconteçam no momento certo, ou seja, no início das infestações. A dose deve seguir a recomendação do fabricante.
Utilizar inseticidas específicos
O uso de inseticidas pouco seletivos reduz as populações de inimigos naturais presentes na lavoura e podem favorecer o aumento da infestação do ácaro.
O pulgão-do-algodoeiro
Os pulgões são insetos bem pequenos, com coloração que varia do amarelo-claro ao verde-escuro. Vivem sob as folhas e brotos novos das plantas, sugando a seiva.
O pulgão-do-algodoeiro pode causar perdas superiores a 30% na produtividade, além de comprometer diretamente a qualidade da fibra devido à formação de fumagina e ao fenômeno conhecido como “algodão caramelizado”.
Essa praga causa danos diretos pela sua alimentação e impactos indiretos pela transmissão de viroses, como o vermelhão do algodoeiro e o mosaico-das-nervuras, que provoca amarelecimento das folhas em variedades susceptíveis.
Além disso, o ataque desse inseto pode ser a porta de entrada para a fumagina, causada pelo fungo do gênero Capnodium sp., que compromete a fotossíntese da planta. Quando os danos do inseto ocorrem durante a fase de abertura das maçãs, a consequência é o “algodão caramelizado”.
Esse sintoma é uma característica da contaminação causada pelo pulgão na fibra do algodão, que impacta em redução de produtividade por inviabilizar ou inutilizar os capulhos abertos afetados.
A temperatura é considerada um fator determinante para o desenvolvimento do pulgão. A faixa de temperatura ideal para a ocorrência do inseto é entre 25°C e 30 °C, sendo que 27°C corresponde à condição ótima.
O manejo do pulgão-do-algodoeiro
Presente durante todo o ciclo da lavoura e em todas as regiões produtoras, a melhor estratégia de manejo para evitar a transmissão de doenças é o uso de cultivares resistentes ou tolerantes às doenças transmitidas pelo pulgão.
O manejo químico é importante. A partir de um bom monitoramento para identificação do nível de dano econômico, a entrada com inseticidas é a principal ação de manejo para evitar danos que a praga causa na planta e nos capulhos abertos.
Lagartas no algodoeiro: principais espécies e impactos na fase de cut out
As lagartas estão entre as pragas mais importantes do algodoeiro e podem causar danos significativos mesmo na fase de cut out, comprometendo estruturas reprodutivas e reduzindo diretamente a produtividade e a qualidade da fibra. Espécies como a falsa-medideira (Chrysodeixis includens), o curuquerê-do-algodoeiro (Alabama argillacea), a lagarta-da-maçã (Heliothis virescens), além dos complexos Spodoptera spp. e Helicoverpa spp., podem atacar folhas, botões florais e maçãs em desenvolvimento.
Durante essa fase final do ciclo, a desfolha causada pelas lagartas reduz a capacidade fotossintética da planta, impactando o enchimento das maçãs e podendo resultar em menor peso de capulhos e fibras de qualidade inferior. Em situações de alta infestação, as perdas podem ser expressivas, especialmente quando o ataque ocorre de forma contínua e sem controle adequado.
O monitoramento constante é essencial para identificar precocemente a presença dessas pragas e definir o momento correto de intervenção. A adoção de estratégias integradas, que incluem o uso de biotecnologias, controle químico e manejo adequado da lavoura, é fundamental para manter as populações abaixo do nível de dano econômico e alcançar o máximo desempenho produtivo do algodoeiro.
O manejo de pragas com Bollgard® 3 XtendFlex®
Cotonicultores que adotam a tecnologia Bollgard® 3 XtendFlex® contam com uma solução avançada para o Manejo Integrado de Pragas (MIP), com proteção contra as principais lagartas do algodoeiro. A tecnologia combina múltiplas proteínas Bt, oferecendo controle mais amplo e eficiente sobre pragas como lagarta-da-maçã, lagarta rosada (Pectinophora gossypiella), falsa-medideira e curuquerê, além de contribuir para a supressão de espécies dos complexos Spodoptera e Helicoverpa.
Além disso, a tecnologia XtendFlex® amplia a flexibilidade no manejo de plantas daninhas, com tolerância a diferentes herbicidas, favorecendo estratégias mais eficientes no sistema produtivo.
Importância da temperatura para a maturação das maçãs do algodoeiro
Em geral, essa fase dura de quatro a seis semanas e está diretamente relacionada à produtividade, disponibilidade de água e temperatura.
Nesse estágio, que acontece por volta de 90 a 100 dias após o plantio, cerca de 50% a 70% das maçãs da planta já estão formadas. Por outro lado, de 30% a 40% das maçãs ainda irão se formar e a temperatura pode afetar esse processo.
Temperaturas abaixo de 20°C durante a fase de maturação podem comprometer a deposição de celulose, reduzindo a qualidade da fibra e impactando diretamente o valor comercial do algodão.
É importante considerar esse fator para poder projetar a produtividade de forma clara. No entanto, vale reforçar que lavouras que receberam um bom manejo ao longo do ciclo conseguem diluir problemas com a qualidade da fibra que venham ocorrer somente nesse momento.
O manejo eficiente no período de cut out é determinante para consolidar todo o potencial produtivo construído ao longo do ciclo do algodoeiro. Ao proteger a sanidade foliar, controlar pragas-chave e considerar fatores climáticos, o produtor possibilita melhor enchimento das maçãs, maior uniformidade na abertura dos capulhos e qualidade superior da fibra. Mais do que uma etapa final, essa fase representa uma oportunidade estratégica para reduzir perdas e maximizar a rentabilidade da lavoura, reforçando a importância de um manejo integrado e bem planejado até a colheita.