Lagartas da soja: tipos, danos e manejo
As lagartas da soja podem comprometer entre 30% e mais de 50% da produtividade, dependendo da espécie, estádio da cultura e nível de infestação. Veja como evitar esses danos e proteger a lavoura.As lagartas da soja integram o grupo das principais pragas que atacam a cultura. Caso não sejam controladas, esses insetos podem causar prejuízos significativos ao produtor.
A Helicoverpa armigera é um dos exemplos mais conhecidos do potencial destrutivo desse grupo de pragas. Para se ter uma ideia do potencial de dano dessa espécie, sua infestação chegou a causar prejuízos superiores a R$ 1 bilhão no Brasil durante sua introdução, em 2013. Desde então, com o avanço das estratégias de manejo, a praga passou a ser mais bem controlada, embora continue representando risco significativo à produtividade quando não manejada adequadamente.
Nos últimos anos, mudanças no sistema produtivo, como a intensificação da safrinha e a sucessão de culturas, têm favorecido o aumento da pressão de lagartas nas áreas agrícolas. Por isso, o sojicultor deve adotar as medidas necessárias para manter a lavoura protegida das principais lagartas que atacam a cultura.
Em regiões com alta pressão de pragas, especialmente no Cerrado brasileiro, observa-se aumento na frequência de aplicações de inseticidas, o que reforça a importância de estratégias integradas para reduzir custos e evitar resistência.
Neste artigo, explicaremos quais são essas lagartas, como identificá-las e quais as melhores práticas de manejo dessas pragas.
Quais são os principais tipos de lagartas que atacam a soja?
De acordo com o Manual de identificação de insetos produzido pela Embrapa, existem mais de 40 pragas que atacam a cultura da soja.
Esse grupo também inclui as chamadas lagartas da soja, que se destacam pelo potencial de disseminação, infestação e danos à lavoura.
Dentre essas lagartas, algumas espécies são identificadas com mais frequência nas principais regiões produtoras do Brasil.
Confira abaixo quais são essas espécies, como identificar essas pragas e os danos que elas causam à lavoura.
1. Lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis)
A lagarta-da-soja já foi considerada a principal desfolhadora de soja no Brasil. Caso sua população não seja controlada, a plantação pode sofrer mais de 30% de desfolhamento, comprometendo a produtividade da safra.
Ao todo, essa espécie passa por seis instares ou estágios de desenvolvimento. Nos primeiros estágios, ela possui uma coloração verde e podem ser confundidas com a falsa medideira.
Quando a lagarta atinge mais de 1,5 cm de comprimento, pode ser encontrada nas cores verde ou escura. Além disso, ela apresenta três linhas longitudinais brancas no dorso.
Os problemas causados por essa espécie começam mesmo a partir do terceiro instar de desenvolvimento, quando ela é capaz de perfurar as folhas. Por ser desfolhadora, normalmente, elas aparecem a partir do estágio vegetativo V2 da soja.
Segundo o manual da Embrapa, entre o quarto e sexto estádio, as lagartas consomem mais de 95% do total de consumo foliar, que é de 100 a 120 cm² por indivíduo.
Caso grandes populações dessa espécie não sejam controladas, o sojicultor pode registrar perdas severas de produtividade em função da desfolha da lavoura.
Atualmente, sua incidência tem sido reduzida em áreas com adoção de biotecnologia Bt, embora ainda possa causar danos em situações de falha de manejo ou ausência da tecnologia.
2. Lagarta-falsa-medideira (Chrysodeixis includens e Rachiplusia nu)
A falsa-medideira pode causar danos econômicos na fase vegetativa e reprodutiva da soja. Ela recebe esse nome porque se desloca medindo palmos, característica importante para diferenciá-la de outras espécies de lagarta.
Essa praga consome as folhas da planta, que ganha um aspecto rendilhado. Por conta da sua velocidade de consumo foliar, a falsa-medideira causa a desfolha das plantas, prejudicando seu desenvolvimento e produção.
Vale lembrar que existem duas espécies conhecidas como falsa-medideira: Chrysodeixis includens e Rachiplusia nu. Ambas têm aparências semelhantes, já que as duas apresentam coloração verde-clara, listras brancas e pontos pretos.
A diferença é que a C. includens ocorre em todo o Brasil e é mais difícil de ser controlada. Isso porque essa praga está localizada na região inferior das plantas e são mais tolerantes a alguns inseticidas.
Embora provoque os mesmos danos que a C. includens, a R. nu ocorre principalmente na Região Sul do país.
Essas espécies têm ganhado importância nos sistemas produtivos devido à sua maior tolerância a inseticidas e pode apresentar níveis diferenciados de suscetibilidade às tecnologias Bt.
3. Lagarta-da-maçã (Chloridea virescens)
Apesar de ser uma praga mais destrutiva nas lavouras de algodão, a lagarta-da-maçã também pode causar prejuízos aos produtores de soja. Isso porque essa espécie pode consumir as vagens, folhas e até os brotos terminais da soja.
Quando recém-eclodida, a lagarta-da-maçã se alimenta principalmente das folhas mais jovens. Conforme aumentam de tamanho, ela passa a consumir as estruturas reprodutivas da soja.
A coloração dessa praga varia entre verde-amarelado, marrom-avermelhado e preto. Para facilitar sua distinção das demais, é importante observar se a lagarta tem listras pálidas e pontos pretos em todo o corpo, características comuns nessa espécie.
4. Lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus)
Também conhecida como broca-do-colo, a lagarta-elasmo pode medir até 16 mm, apresenta coloração verde a azulada, além de faixas marrons ou avermelhadas. Ela também se diferencia pela sua cabeça pequena e de coloração escura, que se destaca em relação ao corpo.
Ao contrário das demais, essa praga ataca as plântulas da soja. Ela prefere atacar plantações cultivadas em solos arenosos e períodos secos.
Durante o ataque, a praga penetra a planta abaixo do solo e cava uma galeria até chegar ao caule. Em seguida, ela cria um casulo, coberto por excrementos e terra.
Esse processo deixa a plântula muito debilitada, facilitando sua quebra. Geralmente, ele leva a planta à morte, prejudicando o estabelecimento e a produtividade da lavoura.
Como a broca-do-colo pode se alimentar dos restos culturais, ela pode ser identificada antes do início do plantio da soja. Devido ao seu hábito de cortar plântulas, ela costuma atacar nas primeiras fases de desenvolvimento da planta, chegando a causar danos até 30 dias depois da emergência.
5. Broca-das-axilas (Crocidosema aporema)
A broca-das-axilas é uma lagarta pequena, com coloração que varia entre o branco e o amarelo e uma cabeça marrom. Ela se destaca porque pode causar danos consideráveis à produção quando ocorrem em alta incidência na fase vegetativa da soja.
Durante seu ataque, as fêmeas das broca-das-axilas depositam os ovos nos brotos foliares, e à medida que as larvas se desenvolvem, unem os folíolos mais novos por fios de seda formando um abrigo.
Quando maiores as larvas se locomovem para as axilas das folhas, abrindo galerias nos pecíolos e hastes, onde se abrigam e se alimentam, obstruindo o fluxo de seiva.
Como resultado, a broca-das-axilas causa o desenvolvimento anormal da soja. Por conta do ataque, a planta pode apresentar redução de altura, aumento da formação de ramos secundários e diminuição da altura de inserção das primeiras vagens. Tudo isso aumenta as perdas na colheita.
6. Helicoverpa (Helicoverpa armigera)
Embora também ataque outras culturas, como milho e algodão, a Helicoverpa armigera é uma praga especialmente destrutiva para a lavoura de soja. Essa lagarta pode alcançar até 4 cm de comprimento e apresentar uma coloração verde, com tonalidades amarelo e rosada, ou completamente preta.
As perdas causadas por essa praga podem chegar a 40% da produção. Tamanho prejuízo é um reflexo do comportamento da helicoverpa na lavoura de soja. A praga pode atacar tanto a fase vegetativa quanto a reprodutiva da cultura.
Quando ataca a plântula, a praga pode provocar a desfolha e consumir os brotos da soja. Já na fase reprodutiva, a praga pode atacar flores e vagens, consumindo os grãos da soja.
Além disso, a espécie apresenta alto potencial de resistência a diferentes grupos químicos, o que exige estratégias de manejo integradas e bem planejadas.
7. Lagarta-preta-da-soja (Spodoptera cosmioides)
Também conhecida como lagarta-marrom, a lagarta-preta-da-soja pertence ao gênero Spodoptera, um grupo de lagartas com elevada importância econômica na agricultura brasileira.
A lagarta-preta-da-soja se destaca pelo alto potencial de dano, especialmente em sistemas com sucessão de culturas, onde encontra hospedeiros disponíveis ao longo do ano.
Essa espécie apresenta coloração que varia de marrom a preta, com listras longitudinais amareladas ao longo do corpo. Próximo à fase de pupa, pode apresentar faixas escuras bem definidas no abdômen, característica que auxilia na sua identificação em campo.
Assim como outras lagartas desfolhadoras, a espécie pode causar intensa desfolha, além de atacar estruturas reprodutivas como flores, vagens e grãos, especialmente em altas infestações. Esse comportamento amplia seu potencial de dano e pode comprometer significativamente a produtividade da lavoura.
Além disso, a Spodoptera cosmioides pode apresentar níveis diferenciados de suscetibilidade às tecnologias Bt e pode apresentar tolerância a determinados grupos de inseticidas, o que torna seu manejo mais desafiador e reforça a necessidade de adoção do manejo integrado de pragas.
O complexo Spodoptera é formado por espécies como Spodoptera frugiperda, Spodoptera cosmioides e Spodoptera eridania, que vêm ganhando importância crescente na cultura da soja. Essas lagartas apresentam alta capacidade de consumo foliar, podendo causar desfolha severa e também atacar estruturas reprodutivas.
Além disso, possuem hábito polífago e elevada mobilidade, o que favorece sua sobrevivência entre diferentes culturas e dificulta o manejo. Esse fator contribui para a manutenção da população da praga entre safras, aumentando o risco de infestação na soja. Em condições favoráveis, podem causar perdas significativas na produtividade, especialmente quando não controladas nos estádios iniciais.
Como fazer o controle das lagartas da soja?
A estratégia mais eficiente para controlar as lagartas da soja e prevenir infestações é o Manejo Integrado de Pragas (MIP). Essa abordagem combina diferentes práticas e técnicas de controle cultural, genético, biológico e químico.
O objetivo é tornar a aplicação dessas práticas mais precisas e eficientes. Por esse motivo, o MIP é considerado uma estratégia aliada da agricultura sustentável.
No caso das lagartas da soja, o produtor pode investir nas seguintes práticas de controle do MIP:
Invista no monitoramento de pragas em todas as etapas de desenvolvimento da soja, garantindo a identificação precoce das lagartas;
Adote práticas de controle cultural, como destruição de restos culturais, plantar na época adequada e fazer o manejo de plantas daninhas e tigueras;
Utilize sementes com tecnologia Bt, associadas ao plantio de áreas de refúgio, estratégia fundamental para preservar a eficiência da tecnologia e retardar a evolução da resistência;
Faça o controle biológico das lagartas da soja utilizando os inimigos naturais dessas pragas;
Faça o controle biológico das lagartas da soja utilizando os inimigos naturais dessa praga, como as espécies indicadas na publicação da Embrapa;
Invista no controle químico das lagartas, técnica que deve ser aplicada em sistema de rotação de mecanismos de ação (MoA), conforme recomendações do IRAC.
A combinação dessas práticas de controle de pragas agrícolas é fundamental para proteger a lavoura e vencer o desafio de lidar com as lagartas da soja.
Biotecnologia no manejo de lagartas da soja
A adoção de biotecnologias Bt é uma das principais ferramentas no manejo de lagartas da soja, contribuindo para o controle eficiente de espécies desfolhadoras e para a redução da pressão inicial de infestação na lavoura.
Essas tecnologias atuam por meio da expressão de proteínas inseticidas derivadas de Bacillus thuringiensis (Bt), que afetam o sistema digestivo das lagartas, levando à sua morte após a ingestão.
Nesse contexto, soluções como a soja Intacta 2 Xtend® (I2X) representam uma evolução no controle de lagartas, oferecendo proteção ampliada contra importantes pragas, como a lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis) e a falsa-medideira (Chrysodeixis includens), além de contribuir para o manejo de espécies mais desafiadoras.
Já a Intacta 5+ surge como uma nova geração de biotecnologia, com múltiplas proteínas Bt, ampliando o espectro de controle e aumentando a robustez no manejo de lagartas, especialmente frente a espécies com menor suscetibilidade, como as do complexo Spodoptera e a Helicoverpa armigera.
No entanto, mesmo com o avanço das biotecnologias, a eficiência do controle pode variar entre espécies e regiões. Por isso, o uso dessas tecnologias deve estar sempre associado a boas práticas de manejo, como o plantio de áreas de refúgio, o monitoramento constante da lavoura e a rotação de mecanismos de ação no controle químico.
O manejo eficiente das lagartas da soja depende da integração de estratégias e da tomada de decisão no momento correto. Com planejamento e uso adequado das tecnologias disponíveis, é possível reduzir perdas e maximizar o potencial produtivo da lavoura.
Essa integração é essencial para preservar a longevidade das biotecnologias e alcançar a sustentabilidade do sistema produtivo ao longo das safras.
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